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A CRISE DA ÁGUA

Benedicto Ismael C. Dutra
05/11/2014



Julio Cerqueira Cesar Neto, palestrante de 29/10/2014 no RCSP, especialista em planejamento e gerenciamento dos Recursos Hídricos, iniciou dizendo não poder falar nada de agradável sobre a crise da água. Atravessamos uma crise grave de abastecimento numa região extremamente complexa, a região metropolitana de São Paulo onde temos 22 milhões de pessoas; algo inusitado em termos mundiais. Essa crise até poderia ter sido superada, caso tivesse sido tratada com a devida atenção.
 

Thadeu Teixeira de Freitas, Presidente do RCSP
e o Palestrante Julio Cerqueira Cesar Neto

 

Culpa-se a estiagem, a falta de chuvas. Lógico que pouca chuva prejudica o sistema de abastecimento, mas essa falta não é a única culpada pela crise.

Todo ciclo hidrológico é evolutivamente variável em termos de evasões de chuva, épocas de grandes privações e enchentes e de poucas precipitações, de estiagem como a atual, inclusive no mundo inteiro. Assim, o sistema de abastecimento de água precisa estar preparado para superar essas evoluções. É preciso suporte e planejamento para que na escassez não cheguemos à situação de hoje.

Não conseguimos nos lembrar da última vez que se fez investimento em grandes mananciais, uma vez que poços artesianos e corregozinhos não são suficientes para suprir uma região como a nossa. O sistema Cantareira foi feito há 30 anos; tínhamos outros reservatórios na região que tinham capacidade para mais de 100% da população que vivia por aqui na época e essa folga permitiu o crescimento da população por pelo menos 10 anos sem problemas. Em 2000 a população cresceu, acabando com o excesso de água que tínhamos e no início dos anos 2000 a demanda se igualou à disponibilidade. Com uma população que cresceu rapidamente em torno de 10 milhões de pessoas, o sistema continuou exatamente o mesmo. Se há 15 anos atrás tivéssemos feito os investimentos necessários, a crise não teria se instalado.

Outro aspecto importante é a gerência da crise. A própria Sabesp já sabia que estávamos entrando no declínio há mais de dois anos, porém, o governo só começou a se preocupar com o problema em janeiro de 2014 e começou a administrar a crise, com nosso governador assumindo pessoalmente a condução do processo. Desde 2013 a Sabesp já queria fazer racionamento de água não aceito pelo governador preocupado em não deixar faltar água durante a copa do mundo de futebol e durante o processo eleitoral, jogando o problema para a frente; assim, propôs o uso do volume morto existente no projeto original do sistema Cantareira, com o qual esperamos conseguir chegar até o começo de 2015 abastecidos e o governo segue tentando mostrar à população que não existe racionamento, o que não é verdade; falta água sim e em diversos locais da cidade e muito. O governo anunciou nova captação (pequena de 4,7 metros cúbicos do sistema São Lorenzo e ainda prevista só para 2018). O problema é grave e sério; o governo não investiu em 15 anos o que deveria e tem enfrentado a crise de maneira equivocada e pessoal. Não sabemos como ele pretende enfrentar a crise em 2015; estamos sem perspectivas e inseguros quanto ao abastecimento futuro.

Preocupa-me o problema e infelizmente ele não é único na região metropolitana. Acabei de publicar um livro sobre o tema, que também fala sobre a rede de esgotos que melhorou, porém ainda está longe do ideal. Temos problemas com a habitação popular; são mais de 3 milhões de pessoas vivendo em cortiços, favelas e loteamentos clandestinos, em condições de extrema vulnerabilidade econômica, social e até civil, sem falar do transporte e mobilidade urbana e agora a escassez de água.
 

Livro "Um estadista Urgente",
de Julio Cerqueira Cesar Neto


A conclusão é que dos anos 90 para cá houve uma mudança radical no comportamento dos governos e sociedade. Os governos deixaram de governar e passaram a se preocupar exclusivamente com aspectos eleitorais, relegando tantos outros igualmente importantes; a sociedade parou de reclamar e de exigir seus direitos. Isso explica porque não investimos nesses 30 anos no abastecimento de água e porque não temos solução prevista para a segunda fase da crise séria e crescente; não temos soluções à vista e não sabemos o que vai nos acontecer; vivenciamos hoje apenas um aperitivo do que virá.

 

Fonte: Rotary Club de São Paulo (PDF)




Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Prodigy Berrini Grand Hotel e é associado ao Rotary Club de São Paulo. É articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. É também coordenador dos sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br, e autor dos livros: “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”;“2012...e depois?”;“Desenvolvimento Humano”; “O Homem Sábio e os Jovens” ,“A trajetória do ser humano na Terra – em busca da verdade e da felicidade”; e “O segredo de Darwin - Uma aventura em busca da origem da vida”(Madras Editora). E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7
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