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ANÔMALA SITUAÇÃO DE DEPENDÊNCIA

Benedicto Ismael C. Dutra
02/09/2015



Os seres humanos são desiguais em seu desenvolvimento espiritual. Isso, porém, não lhes dá o direito de se sobreporem uns aos outros. Com a estagnação do desenvolvimento espiritual da humanidade foi surgindo e se perpetuando a ideia da divisão entre mandantes e submissos, sendo que estes últimos se tornaram obedientes devido à própria indolência, e não menos por forte imposição dos mais fortes, que não se envergonhavam em comprar e vender humanos escravizados.

Na educação, essa ideia foi sendo implantada desde a infância, ampliando-se pela vida toda de várias maneiras, pela mente e pelas emoções, semeando medo, estabelecendo a fragilidade dos vínculos nas relações humanas. No passado, isso foi largamente utilizado pela religião com o intuito de domesticar os seus rebanhos, mantendo os indivíduos em atitude passiva, sem fazer questionamentos, aceitando os dogmas sem análise própria. É o dito: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Modernamente, usam-se meios sofisticados de condicionamento das massas; poderia até se dizer através de um processo de “emburrecimento” que mantém as atenções dos humanos dirigidas para baixo, para o que é menor, para a luta pela sobrevivência e prazeres passageiros, sem que se alcance um relacionamento humano de fato, prevalecendo um estado de conflito silencioso que às vezes evolui para confrontações violentas.

A indolência espiritual e preguiça de pensar com clareza e examinar as questões da vida levam o ser humano a se acomodar e a aceitar passivamente tudo que lhe é impingido sem se dar ao trabalho de investigar objetivamente com raciocínio lúcido. Como consequência inevitável, o ser humano vai enfraquecendo e se tornando ser-objeto nas mãos de pessoas sem consideração que visam apenas satisfazer as suas cobiças e que fazem tudo o que podem para manter essa situação anômala.

Muitas coisas ficavam escondidas, mas agora tudo vem à tona: as misérias, a violência, e a vida exibicionista da classe alta, tudo visível a todos. Isso gera descontentamento e aumento do desinteresse de muitas pessoas, que se tornam apáticas e desanimadas ao verem o quão distante estão dessa forma de vida artificial, transformada em ideal de muitos, e inacessível para a grande maioria.

Estamos adentrando numa fase em que os empregos estão desaparecendo no Brasil e no mundo. Seria o fim dos empregos anunciado pelo escritor norte-americano Jeremy Rifkin, autor de um best-seller sobre o tema? O Brasil é um país de incoerências gritantes. Há tantas coisas a serem feitas, mas não há trabalho nem muita vontade. Lixo e esgoto, são dois aspectos que mostram o baixo nível da seriedade do poder público e da população. No interior do país ainda existem prefeitos que mandam por fogo nos lixões, liberando a fumaça fedida para a cidade e ruas. Muitas rodovias também revelam o descaso, com buracos, falta de sinalização e lixo espalhado. O interior vai ficando ao abandono, sem uma vocação, sem atividades produtivas nem empregos, enquanto tudo vai decaindo, sem que surja um sonho comum de cooperação para o bem.

No entanto, muita coisa poderia ser resolvida com boa vontade e planejamento para dar trabalho e remuneração através de atividades úteis e necessárias, pois as mudanças na matriz global de produção industrial propiciadas pela automação estão criando uma legião sem trabalho, um problema que não poderá ser resolvido pelos meios tradicionais, e que exige uma tomada de posição para que sejam encontradas alternativas, antes que os ânimos se acirrem contra as classes em melhor situação. Ainda há uma cegueira geral, mas logo virá o inevitável despertar.

Com sua propensão para a indolência e preguiça de pensar com clareza, o ser humano se deixa moldar como objeto e se torna um fraco que vai perdendo a capacidade de perceber o mundo e de exercer a sua livre escolha. O agravamento da situação o deixa mais propenso a odiar e a se revoltar. Só o despertar espiritual poderá eliminar essa anômala situação na qual os humanos se colocaram uns acima dos outros para benefício próprio, e restabelecer a boa convivência entre seus pares e a paz.




Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Prodigy Berrini Grand Hotel e é associado ao Rotary Club de São Paulo. É articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. É também coordenador dos sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br, e autor dos livros: “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”, “O segredo de Darwin”,“2012...e depois?”;“Desenvolvimento Humano”; “O Homem Sábio e os Jovens” e “A trajetória do ser humano na Terra – em busca da verdade e da felicidade (Madras Editora)”. E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7
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