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O mundo "VUCA" e a gestão de riscos: estamos preparados?

Antonio Celso Ribeiro Brasiliano
26/12/2017



 VUCA é uma sigla utilizada para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) nos ambientes e situações. VUCA em inglês, VICA em português! Oriunda do vocabulário militar americano, o uso comum do termo VUCA começou no final dos anos 1990 e foi, posteriormente, utilizado nas ideias de liderança estratégica que se aplicam em uma ampla gama de organizações, incluindo todo tipo de organização.
 
O conceito VUCA expressa a complexidade da nossa sociedade contemporânea, devido à interdependência e a globalização, situações que antes tinham pouco impacto, mas que agora refletem em toda sociedade. Por exemplo, a catástrofe de Fukushima fez as montadoras japonesas no Brasil pararem suas linhas produtivas devido à falta de peças. Ou seja, a interdependência é uma realidade no mundo globalizado e deve fazer parte da gestão de riscos!
 
Partindo desta abordagem, o US Army War College formulou um programa de formação para o desenvolvimento das lideranças militares, ao nível estratégico, o qual contempla a adoção de metodologias adequadas para enfrentar o VUCA e fazer frente a um ambiente extremamente  agressivo e predador.  O US Army College caracteriza os componentes deste contexto envolvente do seguinte modo:
 
 - Volatilidade: é marcada pelo ritmo elevado com que ocorrem mudanças com impacto na vida das sociedades desenvolvidas e, concomitantemente, nas suas organizações. Assim, no atual contexto de uma Era da Informação e do Conhecimento, os dados e as evidências existentes no momento presente podem não ser suficientes para a tomada de decisão. Antecipar e prever o que pode acontecer, por exemplo, durante o período de execução de um projeto, são dimensões, por vezes, absolutamente decisivas.

- Incerteza: é uma característica do contexto marcada pela necessidade de se assumir que o conhecimento sobre uma dada situação é sempre incompleto, potencializando deste modo o aparecimento de opiniões divergentes sobre a melhor estratégia a prosseguir, exigindo uma cuidadosa análise do risco. De fato, é cada vez mais difícil levantar cenários futuros com base em acontecimentos passados.

- Complexidade: característica do contexto envolvente que está associada à dificuldade de compreender o resultado das interações das várias componentes de um sistema, uma vez que estas raramente são de natureza mecanicista e linear. A Teoria da Complexidade vem, deste modo, mostrar a interdependência essencial de todos os fenômenos. Neste ponto, a assunção de fenômenos complexos, no seio de uma organização, impõe a necessidade de admitir interações não-lineares entre os componentes do sistema, com consequências que se multiplicam rápida e imprevisivelmente. Característica mais do marcante do século XX e XXI!
 
 - Ambiguidade: descreve um tipo específico de incerteza que resulta de diferenças na interpretação quando as evidências existentes são insuficientes para esclarecer o significado de um determinado fenômeno. Na prática, no âmbito da gestão das organizações, a consequência deste fato é a elevada probabilidade das lideranças poderem interpretar, legitimamente, eventos de formas diferentes, aumentando significativamente a probabilidade de erros na interpretação dos mesmos. A imprecisão da realidade, o potencial de erros de leitura, os significados misto de condições; a falta de ação, confusão entre causa e efeito e a falta de clareza. Para Greg Hutchins, especialista americano em gestão da qualidade e gestão de risco: “nós estamos saindo de um mundo linear de saber a solução dos problemas e tomar uma decisão clara para um mundo dinâmico de entender o sentido, de tomada de decisão baseada no risco, em condições VUCA”.
 
O mundo VUCA e ou VICA só pode ser gerenciado com base em riscos. Daí a importância de todos os gestores saberem e ou possuírem a competência de lidar com as incertezas. Buscando na história militar encontramos também o General Prussiano Clausewitz (1780-1831), que escreveu a obra intitulada "Da Guerra", que teve como referencial histórico as Guerras Napoleônicas. Seu pensamento militar foi moldado pelas incessantes campanhas militares levadas a cabo pelo "Pequeno Corso" por toda a Europa ao longo de cerca de vinte anos. Clausewitz parte da premissa que a guerra não possuía regras fixas e que seus princípios não eram dogmas inflexíveis. Na realidade, seus conceitos são reflexões filosóficas sobre a condução da guerra. Clausewitz ainda antevê a importância do contexto psicológico e social, no campo estratégico.

Ao levar em consideração estes dois contextos, Clausewitz está sugerindo que a incerteza e o acaso sejam levados em consideração na tomada de decisão no campo de batalha. Outros fatores que não sejam só militares devem entrar na análise do comandante. Afirma ainda que a guerra é o reino do perigo. A guerra é o domínio do esforço e do sofrimento físico. Para poder resistir é preciso uma certa força física e moral que, inata ou adquirida, pode tornar indiferente a estes fatores. Clausewitz ressalta ainda que:  “Provido dessas qualidades e guiado pelo simples bom senso, um homem é já um bom instrumento de guerra... Se formos mais longe no que a guerra exige daqueles que ela se consagra, descobriremos que a qualificação intelectual ocupa o primeiro lugar. A guerra é o domínio da incerteza.”
 
Com isto, Clausewitz quer dizer que mais de três quartos de ações militares permanecem em um nível de incerteza muito grande, ou seja, “nas brumas”. Enfatiza que para dominar a incerteza há a necessidade de uma inteligência sutil e penetrante, que o comandante possua instinto de poder visualizar as grandes variáveis que fazem parte do campo de batalha: o adversário, sua própria força, sua força moral, o terreno, as condições do tempo, os recursos empregados e com tudo isso a estratégia, a forma de enfrentar o inimigo.
 
A guerra é o domínio do acaso, nenhuma outra esfera de atividade deixa tanta margem a este desconhecido, nenhuma se encontra em tamanho nível de incerteza, sob todos estes pontos de vista. Em todas as circunstâncias a incerteza entra no curso dos acontecimentos.  
 
Clausewitz, já naquela época, estava de forma direta indicando o gerenciamento de um mundo VUCA, onde na visão dele o grande estrategista deveria dominar e amar a incerteza, respondendo a ela com total flexibilidade e quebra total de regras e dogmas!

O mundo VUCA é baseada na própria gestão de riscos, lidando com cenários complexos e altamente dinâmico, onde se exige dos gestores:

-  visão do todo e não da parte (lembram que é preciso enxergar a floresta e não a árvore!);

- grande velocidade na tomada de decisão (o movimento é mais importante, não podemos ficar parado, se ficarmos o inimigo mata! O ótimo é inimigo do bom, conhecem?);

- não ortodoxia, pensar fora da caixa, não dogmatizar soluções, ser criativo diante das incertezas;

- colaboração e cocriação entre as equipes, redes de colaboração, estar conectado para o entendimento rápido do contexto;

- agilidade, saber mover-se com grande flexibilidade, possuir estrutura leve para poder carregar.
 
O mundo VUCA é um mundo que para ser vencido é preciso possuir estes preceitos, o velho novo conceito da Gestão de Riscos. Por esta razão que a Gestão de Riscos deve ser internalizada nas empresas de forma a possuir capilaridade em todos os processos e respectivos níveis organizacionais. Com isto a média e alta gerência das organizações estarão aptas a lidarem com o mundo VUCA e, desta forma, a empresa terá uma grande vantagem competitiva frente aos seus adversários.  



Antonio Celso Ribeiro Brasiliano é Doutor em Science et Ingénierie de L’Information et de L’Intelligence Stratégique pela Université East Paris - Marne la Vallée – Paris – França, e diretor executivo da Brasiliano & Associados.
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