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ECONOMIA DESEQUILIBRADA

Benedicto Ismael C. Dutra
04/11/2011



Só se ouve falar em crise. O que esperar do futuro? A polícia nova-iorquina reprimiu no sábado, dia primeiro, a manifestação de ativistas descontentes com a atual situação de estagnação econômica e desemprego. Aproximadamente 700 manifestantes foram presos. Os manifestantes querem que "se escute a voz de 99% do país, e não a de 1% que continua enriquecendo".  O protesto havia sido iniciado no Zuccotti Park, em Manhattan, onde desde 17 de setembro centenas de pessoas estão acampadas, em um movimento ao qual batizaram de “Occupy Wall Street” (Ocupem Wall Street, em tradução livre). Vale dizer, “manda quem pode, questiona quem tem bom senso e discernimento”.

Após a eclosão da crise financeira de 2008 observa-se um excessivo endividamento dos países desenvolvidos. Foi a maior absorção de dívida privada pelo setor público. Os USA estão no topo dos devedores. A população americana e de alguns países da Europa começam a sentir na pele os efeitos de uma economia desarrumada como consequência dos desmandos imediatistas.

Bem oportuno o artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, publicado no ESP dia 2 de outubro: “pela primeira vez, os países mais desenvolvidos sentem as consequências da falta de regulação do sistema financeiro. Olhando agora o que ocorre na economia global deparamo-nos com uma situação incerta. A regulação financeira proposta nas reuniões do G-20 encontra dificuldades para se efetivar dada a diversidade de interesses nacionais. Cada banco central opera como melhor lhe parece. O Fed inunda os Estados Unidos e o mundo com dólares e faz operações típicas de bancos comerciais sem se preocupar com a ortodoxia. Os responsáveis pelos desmandos financeiros não são punidos, recebem bônus (ao contrário do que ocorreu com o programa brasileiro de saneamento do sistema financeiro, que puniu os banqueiros) e o desemprego não cede porque não há consumo nem investimento. O Banco Central Europeu e o FMI exigem dos países em bancarrota virtual sacrifícios fiscais que impossibilitam a retomada do crescimento e, portanto, a volta à normalidade. As taxas de juros se mantêm próximas de zero, sem previsão de mudança, e as economias não reagem. Na Europa cada país faz a política fiscal que deseja, não há mecanismos de unificação. O desemprego e o mal-estar político minam esses países, e a ameaça de default é seu parceiro constante”.

Os consumidores estão endividados. O bom funcionamento da economia depende da distribuição da renda. Sem distribuição de renda a economia perde força. Esgotadas as medidas fiscais e monetárias a economia não reage, por quê? Mesmo com juros em patamar bem reduzido, não compensa investir. A produção tem sido sistematicamente transferida para países de mão de obra mais barata que, aliada a um câmbio favorecido, torna inviável a sua retomada e, só com serviços, não se criam empregos na qualidade e quantidade necessárias, mormente quando o mercado financeiro, engajado em caóticas operações especulativas, entra em crise porque com o caos que a especulação provoca, as possibilidades de ganho se vão esgotando.

As manifestações mostram que não se pode organizar a economia apenas em função das finanças. Há que se pensar no equilíbrio geral, mas isso exige desprendimento e as atenções voltadas para um objetivo maior da humanidade, com evolução individual e sustentabilidade. Mas o dinheiro e o poder político se sobrepõem a tudo. Os povos se esforçam por uma vaga na economia global, visando produzir para exportar, mas os atuais paradigmas impulsionam para limites críticos. Há uma forte efervescência que dificulta o controle monetário e financeiro tão bem urdido até agora. As consequências se tornam visíveis cada vez com mais rapidez. A situação assume contornos sombrios, pois ao contrário de outras crises, não se visualizam soluções viáveis diante dos embates que colocam a conservação de privilégios adquiridos em primeiro plano.




Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Prodigy Berrini Grand Hotel e é associado ao Rotary Club de São Paulo. É articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. É também coordenador dos sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br, e autor dos livros: “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”, “O segredo de Darwin”,“2012...e depois?”;“Desenvolvimento Humano”; “O Homem Sábio e os Jovens” e “A trajetória do ser humano na Terra – em busca da verdade e da felicidade (Madras Editora)”. E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7
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