RSS
 

INTUITIVOS E SISTEMÁTICOS


31/05/2012



Existem atletas excelentes nos cem metros rasos, mas que não rendem nada nas grandes distâncias. Por sua vez, outros obtêm os seus melhores resultados na maratona. Os primeiros gastam todas as suas energias em tempos curtíssimos e os outros, apenas gradualmente. E esses dois tipos humanos também existem no campo intelectual. Há pessoas que sabem enfrentar um problema de modo fulminante, outras que dão o melhor de si numa atividade regular e sistemática.

Lembro-me de um grande consultor de marketing que era chamado para resolver questões que os diretores tinham estudado e discutido durante meses. Eram fornecidas a ele as informações essenciais, mas certamente não tinha tempo bastante para examinar com cuidado toda a documentação, mais as pesquisas. Examinava o nosso produto e os produtos da concorrência, a publicidade, e depois fazia algumas perguntas que com frequência não nos pareciam sequer essenciais. A certo ponto, começava a falar, absorto, como se pensasse em voz alta, e das suas palavras emergiam, com impressionante evidência, os nossos pontos fracos e os da concorrência. Na conclusão sugeria, de modo pacato, a solução que lhe parecia mais oportuna. Uma solução genial, em que ninguém tinha pensado. Depois, calava-se, e se lhe fazíamos outras perguntas ou se o incluíssemos numa discussão, desculpava-se, dizia que estava muito cansado. Que precisava de um intervalo para estar pronto para outra discussão.

Tenho conhecido também muitos homens do tipo oposto. Organizadores extraordinários, capazes de uma atividade incansável, que se documentam com um meticuloso cuidado, que enfrentam dezenas de problemas, encontram-se com inúmeras pessoas, uma depois da outra, sempre lúcidos, sempre serenos, sem um gesto de cansaço. Porém, essas mesmas pessoas, postas diante de um problema completamente novo sobre o qual não têm informações precisas, ficam desanimadas; não são capazes de dar uma resposta imediata e tem necessidade de tempo para estudá-lo e refletir.

Quando esses dois tipos humanos são amigos e colaboram entre si, não se 'poderia encontrar um par mais bem servido. Porque se completam reciprocamente. Mas se são inimigos, normalmente quem prevalece, a longo prazo, é aquele persistente e sistemático, porque acaba por apagar o seu adversário, genial mas descontínuo. Certamente, deve ficar atento, porque o outro, quando parece mais cansado e desarmado, é capaz de ações contrárias tão imprevisíveis e desconcertantes que podem inverter a situação. Mas o gênio descontínuo acaba por se fazer absorver pelas próprias ideias, pelos seus sonhos, explora novos caminhos e não consegue dedicar-se apenas a costurar relações sociais, à intriga, às manobras e rixas quotidianas. Por isso, no fim, o burocrata, o político e o intrigante levam sempre a melhor.

Mas, quando se encontram duas pessoas do tipo sistemático, o conflito entre elas torna-se uma guerra de desgaste, como a Primeira Guerra Mundial, combatida no lodo das trincheiras. E ambos saem dela exaustos, sofridos. Ao contrário, a luta entre duas pessoas do tipo veloz assemelha-se as batalhas navais. Que são raras, mesmo numa guerra que dura muitos anos, e onde a estratégia e a audácia frequentemente dão a vitória em poucas horas. Os austríacos tinham derrotado a frota italiana em Lissa e conquistado o domínio do Adriático. Mas anos depois Luigi Rizzo, Costanzo Ciano e D'Annunzio, com três navios apenas, caíram como falcões no porto de Buccari, onde estava ancorada a frota deles, e a fizeram em pedaços.

Nascem, pois, excepcionalmente, indivíduos que reúnem em si as duas capacidades: o gênio fulminante e a imensa capacidade de trabalho sistemático. Como César, como Napoleão. Na verdade, todos os grandes construtores, todos os grandes empreendedores unem o lampejo do gênio a uma extraordinária capacidade de trabalho. César escrevia os seus comentários e projetava a reforma da administração enquanto combatia. Napoleão, preso em Moscou, encontrava tempo de escrever o estatuto da Comedie Framçaise. E é só assim que essas figuras extraordinárias criam, inovam, plasmam a história.

A Arte de Comandar – Francesco Alberoni – Ed. Rocco – (p. 113/114)



Enviar um Comentário:

Nome:
Email:
  Publicar meu email
Comentário:
Digite o texto que
aparece na imagem:

Vida e Aprendizado 2011.
Reproduçao total ou parcial do conteúdo deste site deverá mencionar a fonte.