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O FÓRUM ECONÔMICO E A TEORIA DE MALTHUS

Benedicto Ismael C. Dutra
08/02/2014



A ostentação, as lutas pelo poder e a ganância desmedida arrastaram a humanidade para uma nova crise, tão grave quanto a de 1929, mas não é só financeira; é a espécie humana que, obstinadamente, não assume a posição que lhe cabe.

Em notícia publicada no jornal Valor Econômico (em 15.01.2014) sobre a crise mundial de produtividade, Chris Giles, editor de economia do jornal inglês Financial Times, apresenta a conclusão do Conference Board sobre os dados de 2013: “Se o crescimento da produtividade total desaparecer nos próximos anos, frustrará as esperanças de que os países ricos possam melhorar o padrão de vida de sua população e de que os emergentes possam percorrer a distância que os separa do mundo avançado”.

Poderíamos dizer que essa limitação seria como uma reconfiguração da teoria desenvolvida pelo economista britânico Thomas Malthus (1766-1834) de que o crescimento da população se faria acima da produção de alimentos, provocando misérias e doenças. Atualmente, enfrentamos a crescente desigualdade presente tanto nos países mais desenvolvidos, como nos atrasados. Seja na Europa ou Estados Unidos, a miséria mostra a sua cara, não de forma tão ostensiva como nas demais regiões. Na África, na Índia e na América do Sul, muitas grandes cidades estão rodeadas de moradias precárias onde habita uma população inculta, na sua maioria, e despreparada para a vida. Enquanto as riquezas naturais estão sendo exaustivamente exploradas, a desigualdade se amplia.

Um forte alerta procede da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Desde 2008, quando iniciou a recente crise mundial, o desemprego vem aumentando e vai superar o recorde histórico em 2015 com cerca de 208 milhões de desempregados, acima dos atuais 200 milhões. Entre os jovens há mais de 73 milhões sem emprego, criando-se uma situação jamais ocorrida com muitos deles abandonando tudo, o mercado de trabalho, a escola e qualquer tipo de formação. Sem dúvida, um grande desperdício de talentos provocado pela moderna economia, divorciada da adequada utilização dos fatores disponíveis. É preciso encontrar alternativas. Os jovens devem ter a oportunidade de serem úteis, de produzirem algo, de buscarem ampliação de seus conhecimentos. Afinal o trabalho faz parte da vida.

Em entrevista para a revista Isto é, Guy Ryder, diretor geral da OIT, disse que a situação do mundo do trabalho não evolui desde 2008. Temos mais de 200 milhões de desempregados no mundo desde então, e não se vê uma perspectiva de melhora importante. O preocupante é que agora até se fala numa recuperação econômica  em alguns países, mas é uma recuperação sem emprego. O desemprego continua aumentando, ainda que se possa notar uma pequena evolução. Pelo menos agora já se admite que o problema existe e se fala sobre ele. Na última reunião do G-20, o tema central foi emprego e crescimento. Falou-se de salário mínimo, emprego e negociação coletiva.

Após tantas décadas de encontros com a elite governamental e empresarial, o Fórum Econômico percebeu que a permanente disparidade entre ricos e pobres está aumentando, o que passa a ser um novo risco para a estabilidade social a ser enfrentado. Estamos com um grande contingente de jovens sem emprego e sem preparo para a vida.

Há uma desordem cambial. Para suprir suas deficiências financeiras, países como o Brasil elevam a taxa de juros para segurar o câmbio, propiciando manobras especulativas com moedas. Os especuladores tomam empréstimos em dólares, em países com juros menores, para aplicar nos países que pagam juros maiores. Isso é sabido, mas prevalece o interesse de controlar o câmbio e cobrir os déficits externos. Tudo isso acarreta desequilíbrios na distribuição da renda gerando as grandes disparidades que agora ameaçam a estabilidade social.

Após o término da Segunda Guerra Mundial, causadora de grandes sofrimentos, a humanidade respirou aliviada, esperançosa de melhores dias, mas quedou-se acomodada logo esquecendo as agruras e dificuldades diante de inúmeras oportunidades de lazer e diversão. O cineasta italiano Paolo Sorrentini, em seu filme premiado recentemente com o Globo de Ouro, colocou o jornalista Jep Gambardella (interpretado pelo ator Toni Servillo) no encalço da Grande Beleza, mas o que ele encontrou foi uma humanidade decadente, superficial, ansiosa por prazeres e sem preocupação com o futuro, e deu no que deu. A ostentação, as lutas pelo poder e a ganância desmedida arrastaram a humanidade para uma nova crise, tão grave quanto a de 1929, mas não é só financeira; é a espécie humana que, obstinadamente, não assume a posição que lhe cabe. E as finanças se tornaram mais importantes que a própria população.

Segundo David Cole, diretor de Risco da Swiss Re, a desigualdade vem crescendo no mundo desde a década de 1980, e a crescente atenção dada pela opinião pública ao problema exigirá que gestores públicos e a elite global sejam mais cuidadosos com isso.

Muitos países ficaram com dívidas pesadas. Surgiu a austeridade. O consumo foi reduzido, afetando os empregos. É um problema global que deveria ser tratado globalmente para impedir que a situação evolua desastradamente, pois a inação aqui equivale a gerar uma grave crise social para um período não muito distante. Já sabemos que essas crises provocam o caos e são difíceis de debelar. Há que se fazer um esforço para evitá-las. Mais uma vez se reúne o Fórum Econômico para examinar a situação global. O que poderia ser feito para evitar uma explosão social?



Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Prodigy Berrini Grand Hotel e é associado ao Rotary Club de São Paulo. É articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. É também coordenador dos sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br, e autor dos livros: “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”, “O segredo de Darwin”,“2012...e depois?”;“Desenvolvimento Humano”; “O Homem Sábio e os Jovens” e “A trajetória do ser humano na Terra – em busca da verdade e da felicidade (Madras Editora)”. E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7
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